A importância de brincar

Veja também tempo para nada fazer

 

A maior parte dos pais despende muito tempo durante a semana nas suas áreas profissionais assim como nas tarefas e compromissos do dia a dia familiar. Apesar disso, quase como “super-heróis” continuam a ser personagens principais e determinantes na vida dos seus filhos. O tempo de lazer é, sem dúvida, um dos momentos marcantes para as boas recordações da vida.

Por vezes, separar este tempo parece muito difícil. Talvez a chave-mágica seja mudar o nosso pensamento de “fazer tudo por eles” para “fazer mais coisas com eles”! Sim, “muitas coisas… várias coisas… as coisas possíveis” - quantidade de tempo nem sempre é qualidade!

Para as crianças com PHDA, com todos os seus desafios acrescidos, este tempo de qualidade com os cuidadores assume um particular importância! É um grande apoio para manter o equilíbrio face aos outros momentos e áreas da vida que podem não estar a correr tão bem!

Reforçar momentos a dois, momentos a três, funciona como um importante amortecedor emocional, amortece as quedas e alivia as frustrações. Não as evita, mas enfraquece-as, conseguindo-se mudar o foco para outras tarefas ou momentos de prazer que melhoram a autoestima, o bem-estar, e acima de tudo, fortalecem os laços relacionais!

Será importante nestes momentos que, enquanto pais, deixemos todas as outras tarefas e distrações, assumindo uma atitude positiva e um interesse genuíno pelas atividades da criança. Porque um importante passo para aprendermos a focar a nossa atenção começa na atenção recebida desde tenra idade, primeiro através dos órgãos dos sentidos (desde o reconhecimento da voz da mãe) e, um pouco depois, a partir das atividades partilhadas.

 

Por onde começar? Partilhamos algumas dicas e reflexões...

As rotinas podem ser transformadas em momentos surpreendentes de recompensas e incentivos. Por exemplo, se a semana correu bem, dar à criança a oportunidade de escolher um local para fazer um “piquenique”. Está a chover? Porque não fazer um piquenique na sala! Afinal ter rotinas, não significa fazer sempre tudo da mesma maneira. Tem receio ou algumas reservas? Temos sempre… Mas arrisque, experimente! Afinal, ainda hoje não saberíamos andar, se não tivéssemos arriscado a primeira queda!

É possível tirar proveito de pequenos Grandes momentos:

  • Sente que passa demasiadas horas na cozinha e é aborrecido para si depois de um dia intenso? Desafie o seu filho a escolher uma música e coloquem-na a tocar baixinho … enquanto combinam cinco respirações profundas de olhos fechados! E, toca a colocar o avental (ou outros adereços que possam libertar a criatividade da criança). Faz de conta que o seu filho é o chefe daquele restaurante e vão preparar o jantar para o outro progenitor que chega mais tarde do trabalho. E, claro, todos os bons chefes, precisam de ajudantes à altura!

  • As crianças com PHDA precisam de se ir focando em objetivos a curto prazo, concisos e ajustados à sua idade em qualquer tarefa. Portanto, se estamos na cozinha, o mesmo deverá acontecer! Seguir uma receita simples, passo-a-passo, será também um bom treino para assimilar estratégias de planeamento e organização das tarefas.

  • Da mesma forma, envolvê-nos em tarefas manuais em que possam ter sucesso e sentir-se reforçados por isso, é uma boa forma de se destacarem pela positiva. As sequências de tarefas e objetivos associados ao movimento ajudam no desafio diário que é o de aprender a melhor gerir e controlar a sua impulsividade.

  • Não vamos mentir … há dias em que não vai correr tão bem. Mas isso não significa que tenha de correr mal! Procurem bem, em conjunto, em cada falha, uma oportunidade de aprendizagem … nem sempre as vemos, mas elas estão lá! É legítimo pensarmos neste preciso momento: “impossível … o meu filho suja mais do que aquilo que ajuda”! Mas, tal como não haveria limpeza sem sujidade, também não haverá aprendizagens sem erros!

  • Mas se hoje não é o nosso melhor dia, enquanto adultos, de lidar com a frustração (sim também nos cansamos e também frustramos...mais vezes do que gostávamos), então que o nosso ajudante fique com tarefas menos criativas e igualmente úteis, como pôr a mesa, reorganizar a gaveta dos talheres ou, porque não, sentar-se junto a nós registando a lista de compras para o dia seguinte. Partilharmos momentos nem sempre significa estarmos em ação, significa estarmos juntos! E isso, por si só, pode já ser um grande momento de descontração, de abertura ao diálogo, de espaço para pensar em conjunto, para planear, para esperar … para aprender a esperar pelo outro!

A hora do banho pode ser difícil, mas se anteciparmos algumas dificuldades, podemos contornar melhor os obstáculos! Pode ser um momento lúdico e criativo, consoante a idade da criança. Pode envolver um banho especial de imersão ou espuma, brincadeiras, uma história contada, uma música, uma lenga-lenga ou um incentivo extra para o banho mais rápido, despertando o interesse da criança para outra atividade subsequente.

Hoje és tu que escolhes a atividade! – Esta opção tem impacto positivo na autoestima da criança pelo facto de ser sentir ouvida, se sentir importante: hoje és tu o chefe/ líder da nossa brincadeira!

Naturalmente, os pais podem e devem relembrar os limites apropriados à altura. Se sabemos que o tempo será curto, para evitar a tristeza e frustração de pôr um fim à brincadeira, podemos ajudar a escolher atividades e jogos com duração e possibilidades de sucesso mais certas. Quando a escolha é mesmo brincar ao faz de conta, então podemos preparar e antecipar os momentos de transição para outras atividades: “...porque agora os bonecos foram mesmo todos dormir… Ou, os nossos super-heróis já estão mesmo cansados de tantas aventuras e precisam de parar para recarregar os seus poderes mágicos…” - e no dia seguinte, cumprimos a promessa de retomar no sítio onde ficamos! É importante assumir compromissos e cumpri-los, são oportunidades de aprendizagem a partir do modelo parental.

Demonstrar Afeto – será essencial haver um feedback constante com o elogio genuíno e direto, assim como um contacto/toque físico (por exemplo, um toque na cabeça ou nas costas, um abraço), reforçando o comportamento da criança. Por vezes, na PHDA como em tantos outros desafios das nossas crianças, as fragilidades ao nível da autoestima são uma realidade e é importante que se sintam apreciadas. E é ainda mais importante, relembrá-las disso!

Por fim, mas não menos importante, lembramos os A’s do brincar – através da brincadeira, a criança pode exprimir e reduzir a sua

Agressividade, dominar as suas Angústias e trabalhar a sua Ansiedade. Por outro lado, complementando estes grandes e poderosos A’s, através do brincar, irão ainda emergir outros três:

a Autonomia,

o Autoconhecimento

e a Autoestima!

Porque hoje sou criança e o meu papel é brincar!

 

 

Mais e Mais … As Maravilhas do Brincar:

Falamos tantas vezes da escola e, esquecemo-nos de falar, de pensar ou simplesmente de observar O BRINCAR! E a Brincar as crianças transmitem-nos tantas coisas… podemos percebemos muitas coisas do dia-a-dia dos nossos filhos sem ser sequer preciso perguntar.

  • “Brincar” ajuda a explorar a criatividade de cada um, permite aproximar e consolidar os relacionamento da família, descobrindo pontos de encontro e interesses comuns. Por isso, é de evitar que a criança brinque muito tempo sozinha.

  • O “brincar” também estimula a atenção/concentração das crianças com papéis específicos ou tarefas, contribuindo para o seu desenvolvimento social e aprendizagens. Alguns jogos, exigem maior capacidade atencional, como por exemplo, jogos de memória, jogos de adivinhas ou do quem é quem, jogos de mímica ou caças ao tesouro.

Outro jogo que pode ser proposto é o “jogo da sequência”, em que um dos participantes faz um gesto. O seguinte terá de repetir e acrescentar um gesto diferente. O outro repete e coloca mais um gesto, e assim sucessivamente. Em substituição ao gesto, poderá funcionar igualmente com palavras, sendo este um jogo que estimula a memória e ao mesmo tempo a capacidade de concentração.

  • Relativamente ao controlo dos impulsos, outro bom exemplo são os jogos de tabuleiro, em que a criança precisa de aprender a esperar pela sua vez e de seguir a ordem do jogo: cumprir as regras!

  • Em termos da irrequietude psicomotora, são também importante atividades de “descompressão”, ou seja, que permitem a libertação de energia, alguma dela acumulada ao longo do dia nas sequências de atividades estruturadas que têm para fazer. Algumas ideias: saltar à corda, jogar à bola, pequenas corridas de “vai-e-vem”/ estafetas/ entregas de testemunhos, dançar, saltar, entre outras…

 

Ofereça-lhes ainda o mais precioso (e cada vez MAIS RARO): Tempo para Nada Fazer!

As crianças têm um horário demasiado preenchido, são as atividades extracurriculares, os trabalhos de casa, as atividades desportivas, o centro de estudos, as explicações… e onde fica o seu tempo livre? As suas agendas chegam a ser tão ou mais preenchidas do que as nossas, adultos, profissionais e pais!

As atividades em excesso geram cansaço e stress, por isso, é preciso saber geri-las para que disponham de tempo livre para criar, inventar, partilhar, se autonomizarem e assumirem um papel de “autocontrolo” (ainda que mediado por um adulto) sobre as suas próprias atividades.

A sensação de escolha livre, de ser livre, “ser dono de um pouco do seu tempo” vai ajudá-los a crescer e a desenvolverem-se, como mais capazes de assumir papéis, aceitar responsabilidades, e o imprescindível: aprender a fazer escolhas! As escolhas serão tão ou mais acertadas, quanto o tempo que tiverem para ensaiar escolher, experimentar, viver!

Aqui, e sem nunca esquecer, principalmente nas crianças com PHDA, é importante que haja um momento pré-definido no seu horário diário de tempo livre, ajustado às necessidades do dia, com possibilidades mais alargadas no fim de semana.

“Porque um dia todos nós já fomos crianças e

tão rapidamente nos esquecemos …

Lembre-se Hoje que

Brincar é Aprender … Brincar é Ensinar …

Brincar é, acima de tudo, Tempo de uma

qualidade insubstituível…”