Apanhar o comboio da aprendizagem

...sem deixar passageiros para trás

 

Veja também como "Atenção Fragmentada. Do tempo da televisão a preto e branco para a televisão a cores"

 

Se a maioria das crianças dos nossos tempos tem a atenção fragmentada, o que dizer daquelas que têm défice de atenção diagnosticado ou daquelas que, mesmo sem diagnóstico, revelam maiores dificuldades em focar e em manter a atenção na realização de uma tarefa? Estas crianças, mesmo que não tenham problemas a nível cognitivo, podendo ter uma inteligência dentro ou até acima da média, acabam por manifestar dificuldades a nível escolar, necessitando de um apoio pedagógico acrescido para conseguirem superá-las.

O trabalho em pequeno grupo com as crianças com estas caraterísticas é fundamental: em primeiro lugar, para limitar os fatores de distração existentes numa turma; em segundo lugar, para insistir em conteúdos escolares nos quais estes alunos, devido à problemática relacionada com a atenção, foram acumulando dificuldades e lacunas; e, em terceiro lugar, para recorrer às estratégias pedagógicas e às metodologias didáticas que dão uma resposta mais eficaz a estes casos.

No ano letivo passado, com um 3.º ano de escolaridade, tive oportunidade de passar por uma nova experiência de trabalho, no âmbito do Projeto Fénix, que possui uma filosofia muito interessante no que se refere ao apoio escolar. Em vez de, tal como é habitual, os alunos que necessitam de reforço nas aprendizagens serem acompanhados pelo professor de apoio, enquanto os colegas trabalham com o professor titular, esta metodologia pressupõe o contrário: é o professor titular que dá apoio aos alunos em pequeno grupo, enquanto os restantes alunos têm aula com o professor de apoio. A fundamentação desta opção prende-se não só com o facto de ser o professor titular que melhor conhece os seus alunos, as suas lacunas e dificuldades, mas também com a valorização dos alunos que apresentam dificuldades no seu percurso escolar, na medida em que vão beneficiar de apoio direto por parte do seu professor.

Foi a primeira vez que dei apoio escolar na área disciplinar de Português, em pequeno grupo, a alunos com dificuldades escolares (que podem ser de caráter transitório ou mais permanentes), entre os quais se inserem as crianças com hiperatividade e défice de atenção diagnosticado, bem como outras com dificuldades em focar e manter a atenção. Esta experiência foi muito enriquecedora a nível profissional porque me fez ter de procurar novos caminhos para chegar efetivamente àqueles miúdos.

O primeiro constrangimento com que me deparei foi precisamente com a dificuldade que a maioria das crianças do pequeno grupo tinha em prestar atenção ao que estava a ser trabalhado. Quando líamos um texto, até parecia que as coisas não estavam a correr mal, já que a proficiência na leitura era razoável… o problema residia na sua interpretação. Quando começava a fazer perguntas sobre o texto lido, percebia que os alunos não tinham pura e simplesmente prestado a mínima atenção ao que estavam a ler.

Mais uma vez questionei-me e decidi procurar novos caminhos em conjunto com os alunos, testando na prática aquilo que resultava e aquilo que não surtia efeito. Pensei em aprofundar a estratégia das aulas com atividades fragmentadas, com mudanças de ritmo e de atividades frequentes, destinadas a atenções fragmentadas. Assim, em vez de insistir na mesma matéria durante uma aula, passei a diversificar: uma parte da aula era destinada para a leitura, outra para a interpretação, seguiam-se exercícios de ortografia, de gramática ou de vocabulário.

Esta estratégia resultou, no sentido em que as aulas passaram a render mais, uma vez que os alunos tendem a voltar a focar a atenção quando se muda de atividade. Mas tive de ir ainda mais longe, porque as dificuldades em manter a atenção focada no conteúdo dos textos permanecia. O que fazer para conseguir ultrapassar este problema? Recorri a diversas estratégias que passavam por dois níveis de trabalho: o primeiro nível era procurar estratégias facilitadoras de leitura para textos do manual; outra consistia em fazer atividades distintas, a partir de obras integrais destinadas à infância de leitura simples ou de textos elaborados pelos alunos, individualmente ou em grupo.

Para facilitar a leitura dos textos, recorremos às seguintes estratégias:

  • Identificação dos tópicos principais dos textos, através de listas numeradas;
  • Dramatização dos textos, para que os alunos vivenciassem a narrativa com o corpo;
  • Elaboração de cartazes com desenhos das partes mais importantes da ação, que os alunos levantavam à medida que íamos lendo a narrativa;
  • Preparação de apresentações dos textos à turma, tirando partido da dramatização e dos cartazes elaborados, de modo a motivar e a valorizar os alunos do apoio perante os seus colegas.

O ir além do trabalho meramente cognitivo, juntando-lhe a vivência através da dramatização e a possibilidade de visualização mediante o desenho, contribuiu para que estas crianças conseguissem apreender o sentido dos textos que estavam a ler, memorizassem a sequência de ações, fixassem as personagens, e identificassem o tempo e o espaço em que decorria a história.

Mas o ter recorrido a textos com uma narrativa mais simples também desempenhou um papel importante neste salto qualitativo na aprendizagem. Muitas vezes queremos que os alunos que manifestam dificuldades avancem no sentido de acompanharem a turma. A questão é que, nestes casos, se pretendemos que os alunos andem para a frente, muitas vezes temos de voltar atrás para colmar as suas lacunas e falhas na aprendizagem.

Daí que, frequentemente, tenhamos de recuar para depois podermos avançar. Pode parecer lento, por vezes desanimador, seguramente dispendioso − porque implica investir em horas de trabalho extra de professores de apoio − mas será certamente um caminho necessário a percorrer para conseguirmos recuperar os nossos alunos nos primeiros anos de escolaridade, não permitindo que o insucesso se instale, muitas vezes de uma forma crónica e irremediável, com todos os custos associados, desde os custos financeiros da retenção às mazelas para a alma de quem vê os colegas avançarem enquanto fica para trás… à espera de um comboio que parece cada vez mais difícil de apanhar.

 

Elsa Barros

Professora