Desencadeantes dos comportamentos indesejados

Falar sobre práticas de disciplina positiva leva-nos a questionar sobre a causa e a frequência dos comportamentos indesejados - aqueles que todos desejamos diminuir ou mesmo eliminar.

 

Se conseguimos compreender bem a natureza e a dinâmica do comportamento, torna-se mais fácil perceber de que modo podemos atuar de forma eficaz para vencer esse desafio. Através de uma análise e planeamento cuidados poderemos ser mais proativos na prevenção e redução destes comportamentos, conseguindo uma gestão do nosso grupo/turma mais positiva e mais eficaz, com maior satisfação pessoal e profissional.

 

Ficam algumas questões para reflexão:

- Onde surgem estes comportamentos - em algum local específico?

- Como e quando surgem? Surgem em alguma situação, hora do dia ou contexto particular? Existe algum fator que faça prever que o comportamento vai acontecer?

- Qual é o ganho que a criança ou adolescente tem com esse comportamento? E com a reação das outras pessoas?

- Porque é que o impacto do comportamento é tão negativo? Como podemos aumentar ou diminuir esse impacto?

 

Um comportamento indesejado em contexto escolar, pode surgir por inúmeras razões. Certas condições/contextos, horas do dia, atividades, eventos/acontecimentos e algumas interações entre pessoas podem tornar-se potenciadores de comportamentos desajustados. Vários autores referem-se a estes fatores potenciadores como antecedentes dos comportamentos indesejados.

 

Como antecedentes dos comportamentos com origem ambiental, podemos salientar:

- As condições desconfortáveis (seja pelo ambiente ruidoso, pelo número de alunos ou pelas condições climatéricas);

- Contextos específicos de transição de espaços ou ambiente menos estruturado: a hora de entrada e de saída das aulas, o tempo no bar/refeitório e o recreio;

- A ausência de uma organização clara das sessões, com rotinas, sequências e regras claras para todos (que convém relembrar/repetir);

- Utilização de métodos e materiais pouco cativantes, com pouco suporte visual.

 

Existem antecedentes relacionados com a presença ou ausência de pessoas específicas como determinado colega ou grupo de colega, um professor, um diretor ou membro da direção, ou mesmo os pais.

 

Outros antecedentes podem ter origem na própria criança, quando não se sente bem. Pode estar muito cansado pelo esforço de se concentrar, frustrado por não cumprir os objetivos, irritado por não estar a dormir um número de horas adequado, preocupado com situações familiares ou problemas com os colegas, pode ter fome, sede, ou pode estar doente.

 

Não menos importante, será estarmos atentos ao impacto de determinados tipos de atividades ou eventos específicos:

- Disciplinas ou tarefas para as quais existe mais dificuldade e/ou menor motivação (varia de criança para criança), como por exemplo: exercícios de matemática, tarefas de leitura, atividades musicais com recurso a instrumentos, etc;

- Tarefas que os alunos percecionem como aborrecidas, demasiado longas e frustrantes;

- Grandes discussões em grupo;

- Situações de grupos a partilhar os mesmos materiais (como em atividades de educação tecnológica, por exemplo);

- Mudanças de rotina sem avisos prévios.

 

Não podemos esquecer da importância do fator tempo/hora, também ele um possível desencadeador de comportamentos indesejados. Como períodos críticos, podemos pensar nos primeiros 10 minutos da aula (e no reboliço que se pode gerar) e/ou no início das semanas (o dia de segunda-feira); no período imediatamente antes ou depois do almoço; na transição das aulas (atividades mais estruturadas para tarefas mais livres e expressivas); e os finais de tarde.

 

Existem também antecedentes do foro individual, relacionados com a performance e o nível de exigência da atividade/competência: capacidade do aluno se manter sentado; de ler em surdina de forma autónoma e independente do início ao fim; de organizar textos (especialmente os de temática livre); a necessidade/capacidade de esperar pela sua vez ou por determinada mudança; o tempo despendido no cumprimento de uma tarefa; e/ou as expetativas pessoais sobre o seu próprio comportamento ou desempenho. Considerando a variabilidade individual, estes fatores são talvez dos mais difíceis de antever e os maiores geradores de stresse para todos os intervenientes.

 

Vários estudos nesta área, ajudam-nos também a refletir sobre outros antecedentes muito importantes na previsibilidade e controlo de algumas situações. Seja quando não são dadas opções de escolha aos alunos; quando se sentem envergonhados e/ou humilhados em frente aos pares; quando têm dificuldades em comunicar dúvidas ou colocar questões; quando não se sentem apoiados ou ajudados em tarefas mais difíceis; quando são provocados ou surgem conflitos entre colegas, entre outros.

 

E qual é o ganho obtido com o comportamento?

A avaliação dos antecedentes e das consequências dos comportamentos desajustados podem ajudar a perceber quais os principais motivadores para esses comportamentos – as suas funções, objetivos ou necessidades tornam-se conhecidas. Distinguem-se como principais funções ou objetivos do comportamento dos alunos:

- Obter algo (atenção, sentimento de poder, execução de vingança ou retaliação, estimulação);

- E/ou evitar algo (insucesso, medo, vergonha, esforço, culpa, castigo, dor).

 

Quando conseguimos identificar quais as necessidades que os alunos tentam satisfazer com comportamento indesejado, podemos pensar em mudanças para prevenir esse comportamento e procurar conduzir o aluno, os colegas e os adultos e enfrentar esses desafios de formas mais positiva.

 

Determinados comportamentos, pela sua gravidade e persistência, poderão necessitar de uma abordagem mais especializada do âmbito da psicologia ou da pedopsiquiatria. O psicólogo escolar poderá ser uma grande mais valia na avaliação inicial e encaminhamento destas situações, incluindo necessariamente o envolvimento dos pais.