PHDA e Adolescência

• O que os adolescentes procuram

• O impacto da PHDA no processo de ensino-aprendizagem

• Motivação e aprender a aprender

• Ajuda na organização

• Lidar com a imaturidade

 

Muitos de nós recordam-se com algum receio do Ensino do 3º ciclo (outrora, a escola preparatória) ou Secundário, de algumas experiências e remetemos essas memórias para um tempo passado. Na verdade, as nossas crianças e jovens têm um grande desafio para “sobreviver” a estes tempos das suas vidas.

 

O que os adolescentes procuram

Os adolescentes sentem a necessidade de “ligação” e de se sentirem reconhecidos/valorizados pelo outro. Procuram o seu sentido de pertença e de identificação a um ou a vários grupos. O mesmo se passa em contexto escolar e assume um papel central no seu dia-a-dia académico.

 

A proteção da sua imagem, o sentimento de serem tratados com respeito, assume nesta fase do desenvolvimento uma acentuada importância. Como tal, é fundamental que se sintam seguros e confiantes no ambiente de sala de aula. As críticas e comentários podem ser facilmente sentidos como um ataque pessoal.

 

A conquista de um espaço próprio no espaço comum do grande grupo, da turma, é uma busca constante, diminuindo a probabilidade de se sentirem marginalizados, criticados ou humilhados pelos seus pares.

 

Existem ainda outros desafios:

  • As típicas mudanças físicas e hormonais;
  • A conquista de um aparente “passaporte para uma maior liberdade”. Onde as entradas e saídas das escolas, podem com o consentimento prévio dos pais, passar a ser geridas pelos próprios;
  • As enormes pressões sociais dos pares e de outros grupos sociais pré-existentes no mesmo espaço;
  • Por vezes, um maior sentimento de anonimato, que reforça a sensação de estarem “sozinhos”;
  • O conhecer e lidar com diferentes professores, cada um com os seus métodos de ensino, expectativas e requisitos;
  • O Stress relacionado com a vida em casa e com as tentativas de conquistar um espaço próprio;
  • A pressão da crescente exigência académica e volume de trabalho.

 

Para o professor, gerir o impacto de todas estas dinâmicas na motivação, no comportamento e na disponibilidade para aprender é, sem dúvida, dos maiores desafios do processo ensino-aprendizagem! Talvez por isso também dos mais fascinantes e enriquecedores.

 

E se é verdade que, "a palavra Adolescência não explica tudo, em todos os momentos", maior veracidade assume quando existem outros desafios associados ao Ser Adolescente, como é o caso do diagnóstico de PHDA.

 

O impacto da PHDA no processo de ensino-aprendizagem

Embora cada pessoa com PHDA tenha um perfil único e variável, alguns desafios surgem com elevada frequência e têm maior impacto no 3º ciclo:

  • Fracas capacidades de organização, planeamento e gestão de tempo.
  • Repercussões negativas nas aptidões e metodologias de estudo, p. e., na qualidade dos hábitos de trabalho/estudo, registo de apontamentos, registo da matéria para estudar para as avaliações...
  • As instruções escolares parecem difíceis de reter – maiores dificuldades ao nível da memória a curto prazo e em termos da memória de trabalho verbal.
  • As matérias parecem sempre pouco relacionadas com a sua melhor forma de aprendizagem – daí a importância de, com o avanço da escolaridade, cada vez mais se priorizarem as metodologias por "aprendizagens activas", pelo "saber-saber". Têm benefícios não só ao nivel da motivação, como acima de tudo na capacidade de retenção dos conteúdos por parte dos adolescentes.
  • Têm maiores desafios comportamentais, de desafio das regras e tendência para adotar comportamentos de risco do que os outros alunos – a tendência para a impusividade, torna-se mais marcada, não só em termos de respostas verbais (interromper de conversas fora da sua vez), como de passagem ao ato (como por exemplo, uma maior tendência para experimentar substâncias de abuso).
  • São mais difíceis de gerir e disciplinar que a maioria dos alunos.

 

Motivação e aprender a aprender

O desenvolvimento das capacidades cognitivas que ocorre na adolescência e a maior exigência dos programas escolares implicam um processo de “aprender a aprender”:

  • Como estudar? Por onde começar?
  • Como aceder e selecionar a informação mais importante?
  • Quais os métodos de estudo mais eficazes?4

 

São frequentes as queixas dos adolescentes de que “a escola é aborrecida..."; "porque é tudo uma seca..."; "porque não é nada que me interesse..."; "o que é que isto contribui para a minha felicidade?!"

 

Na verdade, tudo isto, se deve à não ligação entre o presente e o futuro: os jovens não vêm ligação/utilidade entre o que aprendem na escola e o que poderão fazer no futuro, na sua vida ativa. É neste contexto que a integração com os interesses do adolescente, as metodologias ativas, estabelecer objetivos intermédios a curto termo e a aposta no saber aprender, são fundamentais!

 

Este é um dos aspetos ainda mais importantes no caso dos jovens com PHDA! Não é ao acaso que alguns autores identificam a PHDA como uma “miopia para com o futuro". São realmente grandes as dificuldades dos jovens com PHDA, projetarem no futuro, fazerem planos, estabelecerem objetivos concretizáveis a médio / longo prazo e esperar um prémio / gratificação longínqua. É como se tudo se esgotasse no “aqui e agora".

 

Os sintomas de impulsividade, já amplamente abordados noutros setores deste site, assume na adolescência uma particular relevância, interferindo negativamente com o "Pensar antes de Agir".

 

Tendo em conta tudo o que foi dito, partilhamos algumas estratégias e modos de ação que podem fazer a diferença no percurso escolar destes jovens:

  • As instruções das tarefas devem ser providas de um significado. Perceber o “Como?”, o “Porquê?” e “Para quê?”, permite torná-las desafiantes e relevantes para a vida dos nossos adolescentes ao induzir a sua participação ativa e o seu envolvimento direto nas aprendizagens.
  • Os professores devem estar aptos a motivar e a encontrar os interesses e os pontos fortes dos seus alunos. A curiosidade, o raciocínio e o desafiar-se a si próprio podem ser estimulados.
  • Salienta-se a importância das instruções claras e objetivas e da organização do ambiente da sala-de-aula, aspetos que já foram referidos para as crianças e que são também válidos para os adolescentes com PHDA.
  • A organização do horário escolar tem também uma papel relevante, alocando os primeiros tempos da manhã para disciplinas mais desafiantes para estes alunos (como a Matemática e o Português) e evitando horários mais concentrados na parte da tarde.

 

Os adolescentes com PHDA ficam também beneficiados com o oportunidade de participar em clubes, desportos e outras atividades que vão de encontro aos seus interesses e/ou que permitam demonstrar as suas áreas mais fortes, reforçando a autoestima e integração escolar.

 

Ajuda na organização

Os adolescentes com PHDA continuam muitas vezes a requerer uma estrutura de monitorização e acompanhamento em casa e na escola, mesmo quando reclamam e oferecem resistência. Daí que uma estreita comunicação Casa-Escola seja muito importante.

 

Esta é a fase do desenvolvimento onde há provavelmente a maior necessidade de orientação, de interação com adultos cuidadores e organizadores, com canais de comunicação abertos. Com a comunicação também podem surgir desacordos e conflitos de responsabilidade e de papéis mas, havendo respeito, valorização do papel do outro, diálogo e negociação, podem surgir oportunidades de mudança.

 

Na escola, existem experiências muito positivas de programas de tutoria em que um professor acompanha de forma mais direta o aluno na organização das atividades diárias e na prevenção das falhas por esquecimento, mau planeamento e má gestão de tempo.

 

Por outro lado, a pressão laboral e de horários, bem como a diversidade e complexidade dos conteúdos escolares, determina que o envolvimento parental na escola frequentemente diminua nesta faixa etária. Deve, contudo, continuar a ser fortemente encorajado.

 

Naturalmente, temos o objetivo de desenvolver no adolescente uma autonomia cada vez maior mas é necessário identificar qual é o nível de autonomia que consegue, de facto, gerir em determinado momento. “Deixá-lo por sua conta porque já tem idade” pode ser um teste. Mas se o teste falhar, é necessário reajustar os planos de forma que resulte e que diminua a frustração de adultos e jovens!

 

Lidar com a imaturidade

Os adolescentes com PHDA podem parecer maduros e “crescidos” fisicamente, mas é caso para dizer que "as aparências enganam".

 

São tipicamente mais imaturos, social e emocionalmente do que os seus pares. Podemos considerar como termo de comparação, um processo maturativo com 2 a 3 anos de diferença em termos de desenvolvimento, o que afeta diretamente o amadurecimento das suas capacidades de autogestão e de autorregulação das emoções e do comportamento.

 

É, por isso, importante que pais e professores tenham em conta este aspeto para terem expectativas realistas relativamente ao desempenho esperado deste jovens.

 

Em suma, é essencial para o sucesso dos professores de adolescentes com PHDA:

  • A compreensão das manifestações e consequências da PHDA
  • O uso efetivo das estratégias de pedagogia diferenciada na sala de aula
  • A monitorização do progresso académico e comportamental
  • A disponibilidade para organizar apoios e acompanhamento suplementares (por exemplo: relatórios diários ou semanais, contratos, observação do agendamento de compromissos, verificação de materiais, etc).